Acendo o meu cigarro, sozinho e embrulhado em pensamentos elásticos que tomam a forma e vão até onde quero. Ao contemplar o que me rodeia surges-me tu, sempre, como coisa malévola que não consigo desmistificar. O calor do sol na minha pele atenua-se e dá lugar à sensação de gotas geladas que trazes contigo. Dedos que me acalmam a alma e intensificam o trémulo do corpo. A mente turva e desvia-se do ordinário pensamento que trago comigo, usual, organizado e encaixado como telhas de tectos velhos. Quero dizer que somos eternos - tão eternos como o meu cigarro - e acabo por o dizer a mim mesmo. Quando o cigarro acaba e tu desapareces, como éter volátil, regresso às minhas contemplações. Construo-me sobre cinza apagada, inocente e forte, convicto de que da próxima vez trazes contigo prolongamentos de sol e brilho. Que vais fazer com que os teus raios penetrem os espaços entre telhas velhas, reparando-as, como cola mágica e cintilante. Espero-te como cura secreta. Concretizo-te como destruição e cicatrização imperfeita.
30/07/11
13/07/11
09/07/11
Gosto de sentir que és moldável. Gosto de sentir esse poder em que não és nada mais que plasticina colorida nas minhas mãos. Massa que gosta de ser moldável. Encerro lutas conscientes para impedir essa obsessão de entrar no meu interior e acabar por se tornar, invariavelmente, na compulsão a que me propões. Sabes que ao fazer isso, me prendes cada vez mais ao teu círculo vicioso que não acaba. Fazes isso até eu perder a minha própria forma. Até eu me transformar em bola de cola dura. Inquebrável. Invariável. Apenas ajustável às tuas múltiplas formas. Odeio-me, dias depois, por te deixar permitir que te molde como quero.
23/06/11
Representas a decadência a que o meu ser, já pouco humano, consegue chegar. Hipnose a induzir uma perturbação atómica em toda a minha estruturação e arquitectura interna que não tem alicerces com que te possa enfrentar. Desmoronamento de pensamentos e sentimentos que tinha solidificado. Tinha mesmo planeado usá-los contra ti. Em vão. Tento! És como onda que se propulsiona automaticamente e ao teu percurso vais rarefazendo todo o ar com que me posso alimentar. Deixo de saber. Caio na real ignorância de um controlo que julgava adquirido. Afinal de contas, tenho dúvidas. Já não sei se te amo. Já não sei se és tu que quero. Quero livrar-me do teu traço destrutivo, quero descolar-me da tua película adsorvente. Só não queria, querer tanto.
rascunho
Desenho-te numa sufocante tentativa de, pela última vez, perceber a forma como funcionas. Risco, alinho, apago e volto a riscar. Encho o meu redor de rascunhos teus. Tento e não desisto de encontrar o desenho perfeito...
originalmente escrito e perdido como rascunho - a 9/03/2011
10/06/11
Pouso-te no lugar devido, arrumado aos meus critérios. Sinto a mesma ânsia de escrever em letra miudinha e a carregar bem na caneta até aleijar os meus dedos. Sinto que te tenho de riscar de mim. Cortar-te a palavra. O caos voltou a chegar e eu não estou pronto para mais. Quero, mas não estou pronto. O abstracto, o provérbio ensinado e a contemplação do teu olhar já não me preenchem. Há vácuo que não quebras e fissuras que não sugas. Remodelo-me segundo as tuas forças e definho-me ao ver que, no fundo, morre o que era natural e espontâneo de mim. Como árida onda a estalar as lamas. É assim que me fazes sentir.
16/05/11
not there yet
Não há nada como escrever (de novo) à meia luz esbatida e gasta do meu candeeiro de pé, aceso ali atrás. A nostalgia de quem sabe o que quer, piano e palavras. O fumo de tabaco a pairar a conversa. Grandes certezas de que há possessão de verdades absolutas e claros pensamentos estruturados sobre as vivências que nos obrigam ao choque contínuo. Gostava de te conseguir estratificar, sequenciar e até planear assim, numa folha amarela do tempo. Ver-te assim, simplificado. Perceber como realmente és e se realmente és capaz de uma mudança que cada vez mais, parece repetida e oca aos meus ouvidos. Se calhar é verdade que não mudamos. Devemos ter que voltar ao que nos habituamos a ser há muito tempo atrás. Uma necessidade de regressão, como que botão de processo de reiniciação, que nos permita subir degraus (já subidos) para voltar a sentir qualquer coisa que se sobreponha minimamente ao choque. Costumam chamar-lhe de felicidade. We are not there, yet!
02/05/11
so sorry
Confesso que a última vez foi demais e intenso. Confesso que ultrapassei a minha margem de segurança. A margem que era constituída pelo término dos dois lençóis separados e que nos faziam o mesmo. Sei que me auto-destruí mas tenta compreender, foi o medo que me fez ser sincero e avançar. Foi bom a lentidão com que me instalei perto de ti. Membro a membro. Sentir-te de novo perto, tão perto que quis sentir o teu coração no meu e mesmo assim não o consegui fazer. O medo. O medo que acompanha a frustração de quem erra. De quem deixa ir o que não deve e de quem não consegue remediar o que fez. O medo que é culpa e desafio. Queria-te. Quero-te. Ouvi-te. Não te posso incomodar mais! Tal como me disseste: fui tarde demais.
30/04/11
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