30/04/12


Tinha saudades de sentir o meu coração a bater-me nas polpas dos dedos. Da permanência da filtração que consigo obter, quando plasmo o que sinto em folhas de papel sulcadas pelos meus dedos. Esses ninhos de celulose, quentes e confortáveis. Mundos de tinta permanente e plásticos baratos que quero sempre renegar e que acabam por voltar. Há quem diga que homens de ciência não devem ser poetas. Que não devem visualizar e apenas observar. Que não devem metaforizar e apenas descrever. Não consigo. Sinto a alma a partir-se e os fragmentos a ficarem. Como puzzle final já montado. Como ritmo de escape a que o meu coração bate, quando decido mais uma vez mostrar-vos quem sou.

LS, talvez 30 de Abril de 1973 

16/03/12

E porque agora a tua mística desapareceu, que nem açúcar derretido em superfície negra e fria.
Logo agora que acredito no genuíno poder de síntese. Na sintetização do prazer e felicidade. Abro lojas e exporto estórias de amor. Vínculos de gente a que nunca chegaste perto. Corações atados a fio velho e embrulhados em papel timbrado. Marcas plásticas, mais resistentes que açúcar,  que nem tu conseguiste evaporar. Plasticina seca que moldavas facilmente e que agora nem consegues quebrar.

24/02/12


É desafio inócuo e quase frustrante tentar forçar cordas que teci, amarrei e atei. Querer estilhaçar pedaços de mundo - e já não mundo inteiro- e fazer com que eles se vaporizem em forma de pó brilhante que vai com o fumo do teu cigarro contornar o teu cabelo. Querer e até mesmo ambicionar a destruição dessa ideia de posse. Dessa ideia parva de que te tinha (- Tenho-te? Tens-me -) e que tudo o que colocaste à minha disposição era especialmente direccionado para mim. Talvez não tenha recebido assim tanto, afinal colocar ao meu alcance é diferente de me oferecer. Ideia absurda de que éramos sintonia e que só não nos era permitida a fusão por impossibilidades práticas (que pareciam pequenos pormenores) maiores que a névoa cintilante que agora vejo a rodear.

16/02/12


Era um ser que caminhava à destruição. Às ruas negras e sujas perto do Rivoli parei e acendia o meu cigarro setindo-o arranhar a minha garganta. O vento cortava-me a cara e o pedinte aproximava e já eu rodava o torso, Não-desculpe. Sentia a minha fúria por te deixar aproximar e por me começares a remodelar por dentro, bem lá no fundo. Aquele âmago escuro que era meu, e que me sustinha. De lá vivi em cores rosas escuras sem nunca me conseguir afastar por completo da fúria e lá desse fundo esperava por dias como estes. Aqueles em que escrever não custa. Aqueles em que tudo é pessoal, profundo na pele e cortante. Alturas em que percebemos que amamos até sangrar e em que tudo se mostra em câmara-lenta- o que fomos- porque a tempo normal seria pouco, muito pouco.

29/01/12


Campos de dálias brancas, sob um céu negro e vento de chuva. A vista da tua janela não me enganava e eu sabia que vinham de ti, más notícias - pelas quais choraria algum tempo. As tuas palavras sempre me fizeram tremer, exactamente por nunca saber que tipo de notícias carregarias contigo. Agora pego nos meus pincéis e misturo às minhas lágrimas as tuas cores quentes com uma fúria e lágrimas que absorvi de ti, da tua serenidade ao dar más notícias. O esboço disforme do teu pensamento ilustra o teu rosto, alegre e radioso como sempre. Branco, imaculado. Como flor eterna sobre o meu próprio tempo.

N.R. a 5 de Maio de 1972

25/01/12

Há por vezes certas certezas sobre o que me espera. Já ao fim do dia e à madrugada me sento a escrever com um enviesamento do pensamento exausto e áspero. O atrito ensurdece e os pequenos prazeres enraízam-se ao chamarem por mim. Invoco melancolias na recordação e a minha alma assegura-se, dolorosamente, da amplificação dos pequenos laivos de simplicidade que tenta absorver e que psicoticamente tenta recordar e catalogar a propósito. O caótico diurno não encaixa a estas horas e a inquietude instala-se! O pensamento deixa de doer e de existir. Começa o desenrolar de letras e a tentativa frenética de me organizar. Hora de destruição e catarse em que me quero prolongar e fazer com que não amanheça mais. Afinal, tenho medo de não querer (simplesmente?) lutar mais por aquilo que à noite não me faz sentido.

15/01/12

verbal overshadowing



Adoro olhar-te com os teus cabelos longos e castanhos, a escrevinhar o teu caderno preto, que de tanto ser aberto, vê já o seu elástico frágil e em grito ténue de ajuda. Adoro a forma como desenhas as penúltimas letras das tuas palavras. És uma perfeição discreta e escondida, que -confesso- tenho medo que outros descubram. És uma ténue mancha que se esborrata em prosa e verso quente em tempo frio. És sorriso de lábios rosados que encharcam o meu ser e possivelmente as minhas palavras. Influência desmedida e imensurável que dificilmente verá par igual. Olhar-te é como levantar bloqueios de alma - pequeninos e fortes- sentir-me livre e escrever. No fim de tudo, talvez não te adore como és, mas como te escrevo.

23/12/11



Porque há sempre esperanças que pairam no ar, à nossa volta sem nos apercebermos! Tantas quanto más notícias e desgostos. Porque há sempre uma réstia de humanidade dentro de nós - que nunca queremos abandonar - e nos leva a sonhar e pensar de forma mais quente e apaixonada. Porque há quem diga que escrever é forma de terapia e que ler o que escrevem é simplesmente perda de tempo. Porque fui escrevendo e porque penso necessitar de escrever mais amanhã. Porque fui lendo, gostando e até me identificando. Por isto tudo,e porque de certo nos encontraremos por cá...
Um Bom Natal e um Grande 2012

10/12/11

Podia querer tanta coisa. Desejar do fundo do que me conheço e aspirar ao mundo inteiro. Repleto e recheado de tactos, de perfumes e de temperaturas. Sorver, como quem respira, as aspirações de outros. Podia ter ansiado ser assim e talvez desejado sorrisos quentes e amargurados que muitos anseiam. Preferi querer o teu pequeno amor, como brisa leve sobre o meu corpo que estava preparado para receber tempestades. Iludi-me e pensei que ias trazer inundações, que me ias fazer transbordar e levar-me a pensar que amores pequenos, são algo que não existe. Enganei-me e agora o corpo encortiçou e já nem a tua frustre brisa consigo sentir e amar.

28/11/11



os dias cá no Porto, começam a ficar gelados.
sem vontade de escrever. só de ler, pouco.
alguém comigo?