a verdade é que sei que não vamos ser a concretização de palavras, ilustradamente bonitas e patenteadas em vários romances de verdadeira época. que nunca me vais perguntar se amo outra pessoa e se o meu amor de plasticina em coração quente, vai ser teu para sempre. sei que não vamos ser inspiração de poemas e paisagens de brisas quentes em folhas a peneirar o sol. tens de me perdoar se o que vejo agora, não é mais que despedidas enquanto tu ainda te vês de chegada.
26/09/11
18/09/11
sombras da rua de trás
Sentei-me no degrau sujo e velho à entrada de tua casa. Tinha percebido que não te tinha conseguido apanhar, que já tinhas partido. O céu encontrava-se a escurecer e o frio começava a fazer-se sentir. Os meus sentidos apuravam-se cada vez mais. Consegui perceber a mota que passava a alguns quarteirões dali, conseguia cheirar o conjunto de buganvílias que a tua vizinha ostentava orgulhosamente na sua soleira. Os meus olhos começavam a contar (em vão) as estrelas que iam surgindo sobre o pano negro que a noite trazia e começava a sentir o cheiro do tabaco que um jovem fumava à esquina. Dei por mim a procurar-te, uma vez mais, dentro de mim e em todo o objecto que me pudesse trazer um resto de ti. Raspei os meus dedos contra a minha barba e tentei convencer-me de que não podia continuar ali sentado à tua espera. Convenci-me mesmo de que ia ter que me levantar, esticar as pernas e despedir-me da tua rua e de ti. Das tuas portadas de madeira gasta e paredes de cal cansada e não imaculada. Estava decidido, ia embora! Ia descer a tua rua, ignorar os meus sentidos, pedir um cigarro e provavelmente não te voltar a ver. Era isto que ia fazer juro. Até ver uma luz a acender-se por cima de mim e tua porta a abrir-se contigo a convidar-me para entrar.
16/08/11
Caminhamos juntos, inocentes em achar que o destino ainda nos espera no local onde o deixamos. Partiu há muito e não destruiu os caminhos que levavam até ele. Não nos deu coragem suficiente para nos desivar dos trilhos em que nos encontravamos. Continuamos juntos por lá, com acções correctas e reservadas a espaço que se vai colapsando em si e para si próprio. Buraco negro que te suga de mim, que me cola ao chão e não me deixa libertar do peso que és. Os teus lábios não são mais do que pele rosada que já não brilha ao sol. Que já não liberta o mesmo perfume e corrente. Que já não electrifica. O teu aperto de mão não passa de consolo e condescendência piedosa para com uma alma com a qual te identificas, com a qual partilhas um destino inexistente. Deambulamos assim, penitentes e inanimados até chegarmos a um local em ruínas e abandonado, e que já nada tem para nos oferecer.
Não achas que tu e eu, merecemos muito mais do que isto?
Blackbird Blackbird - Hawaii (Niva Remix) by NIVA
04/08/11
Continuas, imparável, a não libertar o que tens dentro de ti para eu ver. Queria tanto ver-te, com os meus verdadeiros olhos e sentir o que és. Se és. Quando és e porque não o és aos meus olhos todos os dias. Gostava de ter a certeza que tens guardadas maravilhas dentro de ti. Que tens planeado, só para mim, um conjunto de formas que desconheço e que sabes que vou gostar.
originalmente escrito a 06/07/2011
30/07/11
Acendo o meu cigarro, sozinho e embrulhado em pensamentos elásticos que tomam a forma e vão até onde quero. Ao contemplar o que me rodeia surges-me tu, sempre, como coisa malévola que não consigo desmistificar. O calor do sol na minha pele atenua-se e dá lugar à sensação de gotas geladas que trazes contigo. Dedos que me acalmam a alma e intensificam o trémulo do corpo. A mente turva e desvia-se do ordinário pensamento que trago comigo, usual, organizado e encaixado como telhas de tectos velhos. Quero dizer que somos eternos - tão eternos como o meu cigarro - e acabo por o dizer a mim mesmo. Quando o cigarro acaba e tu desapareces, como éter volátil, regresso às minhas contemplações. Construo-me sobre cinza apagada, inocente e forte, convicto de que da próxima vez trazes contigo prolongamentos de sol e brilho. Que vais fazer com que os teus raios penetrem os espaços entre telhas velhas, reparando-as, como cola mágica e cintilante. Espero-te como cura secreta. Concretizo-te como destruição e cicatrização imperfeita.
13/07/11
09/07/11
Gosto de sentir que és moldável. Gosto de sentir esse poder em que não és nada mais que plasticina colorida nas minhas mãos. Massa que gosta de ser moldável. Encerro lutas conscientes para impedir essa obsessão de entrar no meu interior e acabar por se tornar, invariavelmente, na compulsão a que me propões. Sabes que ao fazer isso, me prendes cada vez mais ao teu círculo vicioso que não acaba. Fazes isso até eu perder a minha própria forma. Até eu me transformar em bola de cola dura. Inquebrável. Invariável. Apenas ajustável às tuas múltiplas formas. Odeio-me, dias depois, por te deixar permitir que te molde como quero.
23/06/11
Representas a decadência a que o meu ser, já pouco humano, consegue chegar. Hipnose a induzir uma perturbação atómica em toda a minha estruturação e arquitectura interna que não tem alicerces com que te possa enfrentar. Desmoronamento de pensamentos e sentimentos que tinha solidificado. Tinha mesmo planeado usá-los contra ti. Em vão. Tento! És como onda que se propulsiona automaticamente e ao teu percurso vais rarefazendo todo o ar com que me posso alimentar. Deixo de saber. Caio na real ignorância de um controlo que julgava adquirido. Afinal de contas, tenho dúvidas. Já não sei se te amo. Já não sei se és tu que quero. Quero livrar-me do teu traço destrutivo, quero descolar-me da tua película adsorvente. Só não queria, querer tanto.
rascunho
Desenho-te numa sufocante tentativa de, pela última vez, perceber a forma como funcionas. Risco, alinho, apago e volto a riscar. Encho o meu redor de rascunhos teus. Tento e não desisto de encontrar o desenho perfeito...
originalmente escrito e perdido como rascunho - a 9/03/2011
10/06/11
Pouso-te no lugar devido, arrumado aos meus critérios. Sinto a mesma ânsia de escrever em letra miudinha e a carregar bem na caneta até aleijar os meus dedos. Sinto que te tenho de riscar de mim. Cortar-te a palavra. O caos voltou a chegar e eu não estou pronto para mais. Quero, mas não estou pronto. O abstracto, o provérbio ensinado e a contemplação do teu olhar já não me preenchem. Há vácuo que não quebras e fissuras que não sugas. Remodelo-me segundo as tuas forças e definho-me ao ver que, no fundo, morre o que era natural e espontâneo de mim. Como árida onda a estalar as lamas. É assim que me fazes sentir.
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